Pátria italiana em solo canarinho – primórdios dos Palestras Itália de SP e BH segundo Rodrigo Moura.


É sabido pelo leitor que os atuais Cruzeiro e Palmeiras originariamente chamavam-se Palestra Itália, devido às origens italianas dos fundadores de ambas agremiações. Por motivos geopolíticos, mais especificamente ligados a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o Brasil declarou apoio aos Países Aliados, ambas equipes tiveram de trocar de nome. O palestra mineiro tornou-se Cruzeiro Esporte Clube e o paulista Sociedade Esportiva Palmeiras. Uma consequência foi o arrefecimento dos vínculos com a comunidade de origem no caso do palestra “das gerais” em comparação ao palestra paulista.
Mas o que a ascendência italiana dos dois clubes nos diz sobre o crescimento das equipes e a situação do imigrante naquele contexto social em que foram inseridos? Estas e outras perguntas são respondidas no estudo comparativo de Moura (que abrange o período de 1914-1933). Moura cita o contexto social hostil no qual os imigrantes foram recebidos. Em busca de melhores oportunidades de emprego e maior qualidade de vida, milhares de italianos desembarcaram no Brasil desde o final do século XIX e início do século XX. Segundo o autor, os imigrantes e seus descendentes sofriam xenofobia, expressa no apelido pejorativo carcamano e na tese amplamente aceita na época de que estes usurpariam vagas de trabalho destinadas aos brasileiros.
Em meio as hostilidades vividas em um novo continente e em uma nova cultura, os times de futebol palestrinos serviram como um lugar de congregação e coesão italiana em terras brasileiras. O sentimento de pertencimento, autoestima e amor à pátria era levado das áreas sociais do clube para os gramados paulistas e mineiros. Entre vaias e xingamentos preconceituosos, os jogadores demonstravam mais empenho e vigor para provar simbolicamente seu valor na sociedade. Assim, a origem étnica atraía mais simpatizantes da comunidade italiana e as consequentes vitórias dos empenhados clubes atraíra, paulatinamente, mais popularidade e prestígio entre os brasileiros.
Os rígidos e exaustivos regimes de treino registrados pelo autor no caso do palestra paulista, ilustravam os desejados sentimentos de aprovação social e reafirmação étnica com os quais os imigrantes jogavam. Para eles, vencer no futebol era mais que apenas vencer no esporte.

“Para uma considerável parcela dos imigrantes italianos que sofriam no cotidiano inúmeros percalços e preconceitos, eram insultados e hostilizados, viviam a experiência da não aceitação e ainda conviviam com inúmeras precariedades e restrições, não era interessante pertencer a uma equipe perdedora, pois isso só contribuiria negativamente para diminuir ainda mais o prestígio e aceitação dos italianos nas capitais dos Estados de São Paulo e de Belo Horizonte.” (MOURA, 2017, p.78)

Conclui-se que, na visão de Moura, em razão das hostilidades e dificuldades de adaptação sofridas pelos italianos recém chegados ao Brasil, os clubes que partilhavam dessa origem étnica utilizaram esses fatores negativos como motores motivacionais das vitórias e da consequente simbologia de legitimação de sua italianidade.
Devido às limitações de tamanho de nosso texto semanal, ficamos por aqui. Recomendo que o leitor leia o artigo completo para compreender todo o excelente trabalho comparativo  publicado na excepcional revista FuLia (Futebol, Linguagem e Artes) da Faculdade de Letras da UFMG, disponível gratuitamente online.




Por Matheus Marinho





Referências Bibliográficas:

MOURA, R. C. B. Se vencer o Palestra, vence a ‘bella’ e legendária pátria italiana: um estudo comparado dos Palestras Itália de São Paulo e de Belo Horizonte (1914-1933). FuLia / UFMG, Belo Horizonte, v.2, n. 1, jan-abr., 2017. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.17851/2526-4494.2.1.59-79>. Acesso em: 30 set. 2018.




http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/fulia/article/view/10991/10029

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