Adam Smith e o futebol: sobre o sucesso das equipes


  O Escocês Adam Smith (1723-1790) dedicou seu esforço intelectual para responder como as nações prosperam. Em A Riqueza das Nações – Investigação Sobre sua Natureza e suas Causas, publicada em 1776, o célebre teórico discorre sobre os motivos segundo os quais a prosperidade de um país se dá em um contexto de livre mercado e competição. Grosso modo, (e sem nenhuma pretensão de discorrer profundamente sobre a expertise dos economistas) para Smith, a destreza e a habilidade dos trabalhadores envolvidos no processo produtivo aliadas a uma forte e bem planejada divisão do trabalho são fatores fundamentais para o sucesso econômico.
No futebol não é diferente, diversos fatores associados estão presentes em times campeões. Planejamento (envolve desde o calendário, as metas claras e realistas, a  gestão financeira e o capital investido, a gestão de futebol, as atividades administrativas, a montagem do elenco e as escolhas das peças, etc.), capacidade técnica dos jogadores, “questões de vestiário” (relacionamento entre jogadores e comissão), trabalho da diretoria, a eficiência do departamento médico (inclusos os fisiologistas), eficiência da comissão técnica, as escolhas do treinador, a infraestrutura que os clubes oferecem aos profissionais, e mais atualmente, cada vez mais frequente, o papel fundamental dos analistas de desempenho no futebol de alto nível. Tudo isso, não exclui o papel das contingências típicas do futebol: lesões, resultados inesperados, problemas pessoais influenciando o desempenho dos principais jogadores, punições da Justiça Desportiva, entre outros.
Claro que, no final, o entrosamento e o “encaixe” da equipe impõe a superioridade perante os rivais e as consequentes vitórias e títulos, mas, a recorrência do sucesso dos grandes clubes, no futebol de alto desempenho, implica mais do que um “time que deu certo”. Os Alemães, a título de exemplo, começaram seu planejamento rumo ao sucesso  após a derrota de 2002 para o Brasil e colheram os frutos em 2014.  O jornalista Gustavo Hofman, em seu livro 40 dias com a campeã do mundo: histórias e bastidores da Alemanha no Brasil, conta todo o processo incrível de estudo e preparação dos tetra campeões. Apesar de tudo, isso não nos diz nada sobre a lástima na Copa de 2018.
  A delícia do futebol está justamente na fronteira entre a  “fórmula de um time vencedor” e as contingências da vida e do esporte… está no gol de Gabiru diante do Barcelona avassalador, na Grécia campeã da Europa, no sucesso esportivo de uma ilha de gelo que possui 300 mil habitantes e consegue fazer um time competitivo.
A receita ideal de contratações, investimentos altos e boa gestão nem sempre garante títulos e glórias. Entre os clubes brasileiros, os maiores exemplos dos últimos dois anos são Flamengo e Palmeiras. O primeiro, elogiado pela nova gestão financeira, sóbria e competente, montou grandes elencos e fracassou nas principais competições que disputou, apesar de dois dignos vice-campeonatos (Sul-Americana e Copa do Brasil, em 2017). O segundo, a despeito da iminente conquista do Brasileirão deste ano, no papel e na imprensa, era tido como o favorito de diversos torneios importantes, e apesar de tudo, fracassou. O Palmeiras projetado e patrocinado por um forte investidor, ficou aquém, nos títulos, do que se esperava.
Outros clássicos exemplos são o fracasso de Rivaldo, em 2004, no Cruzeiro, após dois anos passados do mágico penta campeonato da seleção brasileira e da brilhante atuação individual do meia durante a Copa de 2002. O outro, lembrado por meu querido tio, refere-se ao ataque “galático” do Flamengo em 1995: Sávio, Romário (recém-chegado do Barcelona, eleito em 1994 o melhor do mundo) e Edmundo. Mais um fiasco, o então melhor ataque do mundo tornou-se paródia e “pior ataque do mundo”.
Nesse mesmo contexto, uma breve nota sobre este domingo, onde os amantes do futebol presenciaram um jogaço pelo primeiro encontro da final da Copa Libertadores 2018. Um time organizado e muito superior tecnicamente sofreu para empatar e segurar o ímpeto do Boca na sua mágica Bombonera. Uma clara prova de que a camisa, de fato, pesa, mais um fator subjetivo que agrega o combo dos campeões. Os fatores subjetivos pesam, mas bem menos que os fatores técnicos e racionais.
Apesar de fatores subjetivos como as contingências, a tradição, a torcida e o peso da camisa, equipes prosperam e perpetuam seu nome e suas glórias devido a muito trabalho e planejamento.
Para finalizar fico com a frase do genial Tostão, que dispensa apresentações como atleta, comentarista, médico, professor e cronista, que na oportunidade da citação discorria sobre o bicampeonato brasileiro conquistado pelo Cruzeiro em 2014, o que não impede a aplicabilidade atual da afirmação:
“O Cruzeiro teve planejamento, organização e seriedade profissional, virtudes essenciais para se formar um ótimo time. Mas nada disso seria suficiente se não tivesse feito as escolhas certas. Elas não foram por acaso.”¹



Por Matheus Marinho



Referências:

SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

HOFMAN, Gustavo. 40 dias com a campeã do mundo: histórias e bastidores da Alemanha no Brasil. Rio de Janeiro: Via Escrita, 2014.

¹https://m.folha.uol.com.br/amp/esporte/2014/11/1552237-opiniao-cruzeiro-fez-as-escolhas-certas-e-nao-foram-por-acaso.shtml

Comentários

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  2. Excelente texto... Pensando apenas no futebol brasileiro, creio que os fatores que mais influenciam na temporada de um grande clube com investimentos altos e elencos "fortes" (no papel), são o planejamento (ou a falta dele) e questões de vestiário. Não vejo treinadores com qualidade muito destoante, não vejo grandes diferenças entre elencos (exceção do Palmeiras) e também creio que essas equipes tem departamentos médicos competentes.

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